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Arte de rua: cor, luta e resistência

  • lauras05
  • há 1 minuto
  • 4 min de leitura

Artistas lutam por espaço e reconhecimento na cena ainda conservadora de Mato Grosso do Sul

Fernanda Sá e Maria Gabriela Arcanjo



Raique Moura: obras expostas na feira Borogodó, em Campo Grande - MS
Raique Moura: obras expostas na feira Borogodó, em Campo Grande - MS

As artes visuais representam um conjunto de artes que têm a visão como principal forma de compreensão. Elas podem se manifestar através de artesanatos, esculturas, desenhos, fotografia, entre outros. Esse tipo de arte surgiu há mais de 30 mil anos com as pinturas rupestres e até hoje funciona como um espelho da sociedade, o que demonstra o desejo humano de registrar a vida cotidiana e suas culturas.

Dentre as várias manifestações de artes visuais, algumas são mais aceitas socialmente, outras nem tanto. Além disso, o recorte geográfico também é uma questão atenuante quando se fala em arte (no geral). Em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, um dos estados mais conservadores do país, não é fácil fazer arte. Na verdade, é difícil ser um artista quando você não vende o bom e velho sertanejo.

Diante desse cenário, formas de expressão artísticas que fogem do convencional se tornam sinônimo de resistência. Os “artistas alternativos” buscam espaço em um local onde o reconhecimento já é escasso. É o caso de alguns grafiteiros, ilustradores e outros profissionais que, mesmo em circunstâncias desafiadoras, escolheram arriscar e assumir o amor pela arte.

Para muitos, o grafite, por exemplo, vai muito além da estética: é um ato político. Da periferia aos grandes centros, ele carrega narrativas de luta, resistência e pertencimento. “Nossa arte urbana é uma ocupação visual, é nosso direito à cidade. É uma transformação política realizada por pessoas que são jogadas à margem da sociedade”, afirma Sanderley Sabergue Martinez, idealizador do Campão Graffiti, evento criado em 2022 para fortalecer a cena local e abrir novas possibilidades para a arte de rua na cidade.

O festival, que acontece anualmente, já mapeou mais de 60 artistas no estado, sendo 30 apenas em Campo Grande. “Antes, contávamos nos dedos quem pintava aqui e quem conseguia grafitar fora da cidade. Hoje, temos uma rede estruturada, com intercâmbio entre artistas de diferentes lugares”, explica Sanderley.


Traços femininos


No universo do grafite, ainda dominado pelos homens, mulheres artistas desafiam o machismo e conquistam seu espaço nas ruas de Campo Grande. Elas fazem da arte uma forma de resistência e luta, enfrentando preconceitos e barreiras sociais para se expressarem livremente.


Crush Crew:  Grupo feminino de grafiteiras de Campo Grande composto por Carolini Guimel, Hellen Barba e Khamylle Yasmyne Jacques
Crush Crew:  Grupo feminino de grafiteiras de Campo Grande composto por Carolini Guimel, Hellen Barba e Khamylle Yasmyne Jacques

“A arte, principalmente o grafite e o pixo, são formas de ocupar espaços e dar voz a quem sempre foi silenciado”, afirma Carolini Guimel, pedagoga e integrante do coletivo Crush, formado exclusivamente por mulheres grafiteiras. O grupo surgiu em 2013 como uma manifestação feminina para marcar presença na sociedade. “Cada mural, cada traço e cada cor que usamos é uma resposta a uma sociedade que muitas vezes tenta nos invisibilizar”, completa.

A desigualdade de gênero dentro do grafite também é uma barreira. “A gente enfrenta uma resistência que os homens não enfrentam. Nosso trabalho já foi apagado várias vezes, muitas vezes por outros grupos de pichação masculinos”, denuncia a artista.

Mas a resistência persiste. Para Erika Souza Pedraza, artista visual e arte educadora, o grafite também pode ser um caminho de transformação social, principalmente para as crianças da periferia. “Ver como o grafite, o rap e a dança podem ser uma alternativa para eles é algo muito forte. Através dessas opções, a gente está transformando”.


Erika Pedraza: série de obras “Amarelo Drama” no ano de 2020
Erika Pedraza: série de obras “Amarelo Drama” no ano de 2020

A arte também é um produto e ser artista é uma profissão, embora muitos não reconheçam isso. Se já é difícil buscar reconhecimento na cidade, viver de arte parece ser quase impossível.

“O estado é conservador, não dá valor para a arte, então é muito complicado para a gente fazer arte. Acho que a parte de vendas, de se sustentar através da arte é desafio, é muito difícil. Eu mesma gosto de dar aula, eu gosto de estar em sala de aula, eu não faço trabalho que eu não gosto, sabe? Mas eu não tenho condições de sair da sala de aula e viver de arte, isso é impossível”, destaca Erika Souza Pedraza.

Raique Moura, também artista visual, compartilha a mesma ideia sobre Mato Grosso do Sul. No entanto, reconhece o crescimento, mesmo lento, das artes mais alternativas, assim como sua expansão fora das ruas. “Muitos novos artistas surgiram e estão se permitindo experimentar essa linguagem do grafite, pintando murais, muros, galerias e bares”. Além disso, é uma via de mão dupla: ao passo em que novos artistas surgem, mais eles ganham espaço. “Eu acho que o olhar da população tem sido um olhar mais afetuoso. Claro que falando de um núcleo, né? Tem muito preconceito ainda”.


Raique: visibilidade na feira Borogodó, em Campo Grande
Raique: visibilidade na feira Borogodó, em Campo Grande

Quem vive na capital morena certamente percebeu a efervescência das feiras criativas nos últimos anos. Elas se apresentam como um espaço viável para artistas e outros produtores de diversos ramos e não apenas fortalecem a cultura em Campo Grande, como também apresentam ao público novas formas de enxergar a cidade. “A arte tá aí pra tirar a gente também da zona de conforto e mostrar uma possibilidade diferente de mundo”, finaliza Raique.

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