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Entre o Japão e o Brasil

  • lauras05
  • 18 de nov. de 2024
  • 4 min de leitura

A jornada de Dona Célia é moldada pelo encontro de culturas e memórias marcantes desta senhora de 63 anos


Texto e fotos: Ana Porangaba, Emilenne Queiroz e Milena Hashimoto


     O nome dela é Cecília Mitico Shigemoto Oshiro, mas os mais próximos a conhecem como "Miti", uma senhora de sorriso fácil e uma gentileza que cativa a todos. Ela é esposa, mãe de três filhos e avó de sete netos. Nascida em Birigui, São Paulo, mudou-se para Campo Grande com a família aos cinco anos de idade. A cidade morena, que mais tarde viria a chamar de lar, trouxe também novos desafios. Morando atrás da loja de armarinho que seu pai montou, Cecília logo começou a estudar em uma escola que havia na Igreja Santo Antônio. No entanto, a adaptação não foi simples. Acostumada a falar nihongo, idioma de suas raízes asiáticas, ela enfrentou dificuldades de comunicação nos primeiros anos de aula. Ainda assim, nada impediu que sua infância fosse recheada de brincadeiras. Cecília lembra com carinho das partidas de queimada e rouba-bandeira na rua, das aventuras de bicicleta com sua irmã Yuri e, principalmente, das travessuras ao lado do irmão Hiro, o arteiro da família. Ao relembrar essas memórias, uma cena vem à mente: o irmão insistindo em subir num pé de manga no quintal do vizinho, com Cecília como cúmplice na coleta das frutas. Quando o dono do terreno aparecia, porém, ela não hesitava em abandonar o irmão e correr para evitar a bronca. As travessuras de Hiro também colocavam Cecília em posições difíceis. Ela recorda o dia em que ele sofreu um acidente de bicicleta. Ensanguentado, Hiro correu até a irmã pedindo que guardasse segredo para que o pai não soubesse do incidente. Mas, diante da gravidade do ferimento, ela não teve escolha senão contar ao pai, priorizando a saúde do irmão.

        Algo que sempre esteve presente na vida de Dona Cecília é a arte da costura. Aos 13 anos, ela foi convidada para o aniversário de uma amiga e como toda menina na pré-adolescência, sonhava em vestir algo especial para a ocasião. Cecília pediu para que sua mãe, que já costurava, fizesse um vestido para ela ir ao aniversário e assim sua mãe falou para ela ir a uma loja renomada chamada Triana Tecidos. Cecília voltou para casa animada e satisfeita com a escolha do tecido, mas foi surpreendida: ao invés de confeccionar o vestido para a filha, sua mãe decidiu ensiná-la a fazê-lo por conta própria. Inicialmente, Cecília não imaginava que teria de confeccionar o próprio vestido, mas com paciência e o apoio da mãe, aprendeu cada etapa e finalizou a peça. Foi aí que, além de realizar o desejo de um vestido especial, ela descobriu um talento para a costura. Esse dom se fortaleceu ainda mais quando sua mãe começou a dar aulas de corte e costura. Certa vez, movida pela curiosidade, Cecília acompanhou uma das aulas e acabou ajudando as alunas. A mãe, percebendo o jeito natural da filha para orientar as meninas, ficou entusiasmada e passou a pedir que Cecília a auxiliasse nas aulas, consolidando ainda mais a paixão da jovem pela costura.

Firme no Brasil: a família cresceu e prosperou depois de idas e vindas


 Quando Cecília se casou e teve seus três filhos, enfrentou uma decisão difícil: aceitar a proposta do marido de se mudar para o Japão em busca de melhores oportunidades ou permanecer no Brasil cuidando da família. Embora a vida no Brasil estivesse estável, sua avó a aconselhou a acompanhar o marido e viver essa nova experiência ao lado dele. Assim, em 1992, Cecília embarcou para o Japão, deixando os filhos temporariamente no Brasil. A adaptação ao país foi desafiadora. Cecília já havia esquecido parte do idioma japonês e se sentia como uma "analfabeta" ao não conseguir ler os caracteres complexos de kanji, katakaná e hiraganá que preenchiam as ruas e lojas. Com esforço e persistência, ela começou a recordar o idioma que aprendeu na infância. Para Cecília, mesmo com raízes japonesas, o espírito brasileiro se mostrou essencial: "o brasileiro é criativo e consegue dar jeito para tudo", diz ela, sobre como superou a barreira da comunicação.

Após um ano e meio, em 1994, Cecília e o marido retornaram ao Brasil, mas a experiência no Japão deixou marcas. Ela notou com clareza as diferenças culturais entre os dois países e desenvolveu uma admiração pela educação e pelo respeito dos japoneses, contrastando com a percepção de que no Brasil as pessoas eram mais rudes e mal educadas. O Japão, porém, ainda não havia saído de sua vida. Em 1996, influenciada pelo desejo do filho Márcio de viver no país, Cecília decidiu voltar ao Japão, dessa vez com a família toda. A mudança permitiu que ela cuidasse de seus filhos de perto, levando-os a viver plenamente essa nova etapa no país das suas origens. Mas um tempo depois, após uma conversa com seu marido eles decidiram tentar viver mais uma vez no Brasil, pois muita gente partiu sem eles estarem aqui para a última despedida, inclusive o pai dela.

O foodtruck de Dona Mitiko percorre condomínios a convite dos moradores


     Logo que voltou ao Brasil, Cecília e sua família enfrentaram uma fase financeiramente difícil. A ideia de criar um trailer de comida começou a partir de uma situação complicada, mas também de um momento de necessidade e criatividade. Ela encontrou uma oportunidade de recomeço quando sua vizinha Adriana ofereceu uma vaga em uma feira de bairro. Com a ajuda da mãe e do marido, ela começou a vender Karê, um ensopado de curry com batatas e carne, e empanadas paraguaias, pratos simples, mas com um sabor que logo conquistou os fregueses. "Eu não gostava de cozinhar, mas era preciso fazer algo", lembra Cecília. A barraca improvisada feita com bancos e uma toalha de mesa foi um primeiro passo para o sucesso. Com o tempo, a família foi conseguindo comprar equipamentos melhores, até conseguir um trailer próprio. Hoje, o trailer "Miti, culinária com sabor oriental" atende a diversos condomínios e eventos em Campo Grande, sempre com o apoio dos filhos e netos. O cardápio é recheado de pratos que mesclam influências japonesas, como o yakisoba seco e o gyoza com carne bovina, adaptados ao gosto brasileiro. "O que faz sucesso mesmo são os pratos que fazemos com amor e dedicação, tudo feito de forma fresca e com tempero único", explica. E apesar de todo o trabalho árduo, a gratidão por estar juntos, superando obstáculos, é o que mantém a família unida e forte.

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