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O abandono das influĂȘncias culturais no MS

  • lauras05
  • 15 de jul. de 2024
  • 8 min de leitura

Heranças paraguaia, årabe, japonesa e indígena estão sendo minimizadas no estado


Giovanna Montoso, Juliene Melo e LetĂ­cia Dantas


Para as demais localidades brasileiras, Mato Grosso do Sul pode ser sinĂŽnimo de agronegĂłcio e mĂșsica sertaneja, mas o estado vai alĂ©m desses sĂ­mbolos. Aqueles que decidem mergulhar na histĂłria do MS, ou quem jĂĄ nasceu imerso nela, encontram na construção do estado pantaneiro a riqueza da pluralidade de etnias. Árabes, IndĂ­genas, JaponĂȘs e Paraguaios sĂŁo os que mais influenciaram as identidades sul-mato-grossenses. Com essa vasta diversidade cultural, nĂŁo Ă© justo minimizar certas culturas e valorizar apenas uma ou duas.

O geĂłlogo com especialização em Produção Cultural e mestre em Comunicação Pedro Ortale, ressalta que a produção musical sertaneja envolve vĂĄrios aspectos como a forma de se vestir ou de se alimentar. “Isso Ă© super importante. EstĂĄ totalmente relacionado, inclusive, com a formação da nossa identidade sul-mato-grossense, digamos assim, a exemplo do quebra torto pantaneiro”. O quebra torto Ă© uma iguaria da culinĂĄria de MS, uma tradição principalmente na ĂĄrea pantaneira. Arroz carreteiro com ovos fritos logo no cafĂ© da manhĂŁ, para fornecer a disposição necessĂĄria aos peĂ”es que apartam o gado.

A homogeneização estĂ©tica nĂŁo permite que exista uma diversidade. Para Pedro Ortale, o papel da polĂ­tica pĂșblica Ă© descobrir novos mercados mais generosos e democrĂĄticos.


Outras heranças


Em 2020, aproximadamente 130 imigrantes da Síria, solicitaram o reconhecimento da condição de refugiado no Brasil, segundo o relatório Dados Consolidados da Imigração no Brasil 2020, realizado pelo Observatório das MigraçÔes Internacionais (OBMigra). Além disso, aprovado por lei, MS comemora no dia 22 de Novembro, o Dia da Comunidade Libanesa.

Segundo Lenita, a partir de 1920 ocorreram ondas de imigração em todo o Brasil. Campo Grande Ă© uma cidade formada por imigrantes de vĂĄrias ondas. A globalização mostra que a imigração se torna mais fĂĄcil de vĂĄrias maneiras. “Essa migração vai formar a cidade, principalmente essa nossa regiĂŁo aqui, principalmente Campo Grande.”, complementa.

O comerciante libanĂȘs do centro de Campo Grande, Salem Ali Akra, afirma que o paĂ­s nĂŁo tem povo original. “Os Ă­ndios sĂŁo donos daqui. EntĂŁo, todo mundo veio por meio da colonização, vĂĄrias etnias como os holandeses, portugueses, alemĂŁes, italianos. AĂ­ veio tambĂ©m a imigração ĂĄrabe - do LĂ­bano começou desde 1880, mais ou menos 144 anos”.

Salem vive hĂĄ 34 anos no Brasil. Foto: Giovanna Montoso


Segundo dados histĂłricos da Secretaria Estadual de Educação de Mato Grosso do Sul (SED), os primeiros registros de Libaneses, SĂ­rios e Árabes datam do sĂ©culo XX. Esses imigrantes vieram pelo Uruguai atĂ© a BolĂ­via, passaram por CorumbĂĄ e se estabeleceram na capital. Com forte perfil empreendedor, eles se estabeleceram como comerciantes. De acordo com Salem, essa construção foi principalmente no centro. “Esse inĂ­cio da rua 14 de Julho Ă© quase 100% ĂĄrabe. SĂł que com o tempo, os filhos foram entrando em outras profissĂ”es”.

Essa Ă© uma visĂŁo compartilhada pela professora e bailarina de dança ĂĄrabe, Nidal Abdulahad. Para ela, um dos traços mais marcantes que continuam existindo na cidade Ă© o comĂ©rcio. “VocĂȘ pode ver ali na rua 7 de setembro as confeitarias ĂĄrabes, as lojas ali pela 14, ali na CalĂłgeras”.

PorĂ©m, apesar de terem contribuĂ­do de forma significativa, alguns apagamentos sĂŁo evidentes. Durante a entrevista, Salem citou o fim do Clube LibanĂȘs, que funcionava na rua Dom Aquino. O espaço foi construĂ­do ao longo de dez anos, entre 1952 e 1962. Funcionava como um lugar de valorização da cultura e de encontro entre a comunidade. Atualmente fechado, esse legado se perdeu, e de acordo com Salem alguns encontros acontecem na Mesquita de Campo Grande, localizada na Vila Planalto, ou na Igreja Central.

Nidal comenta que os principais desafios em relação Ă  cultura Ă© poder deixar ela presente, seja semanalmente ou mensalmente, para que as demais pessoas tenham acesso. Ela relembra que acontecia a Festa das NaçÔes, em que a comunidade libanesa marcava presença cultural por meio de  gastronomia, dança e mĂșsica.

Ela ainda complementa que os eventos que eram organizados pela ColĂŽnia Libanesa foram sendo perdidos ao longo dos anos. “NĂłs temos em novembro, a independĂȘncia do LĂ­bano, mas nĂŁo se tem comemorado hĂĄ muitos anos, devido a vĂĄrias questĂ”es religiosas e polĂ­ticas que estĂŁo acontecendo”.

Um evento que a deixou feliz foi a realização da Festa das NaçÔes Amigas, em maio deste ano, quando ocorreu a junção de todas as colĂŽnias de imigrantes aqui da capital sul-mato-grossense. “A maior dificuldade que a comunidade libanesa tem Ă© um espaço para que isso seja mostrado para a população. EntĂŁo tivemos uma festa bem linda”.

 

Além de visibilidade, o abandono cultural geracional é um problema

 

Salem acredita que essa perda cultural tambĂ©m vem do ambiente familiar, pouco relacionado com a vinda para o Brasil. Para ele, Ă© necessĂĄrio ensinar a tradição desde a infĂąncia. “Eu nĂŁo sei se com o tempo essa cultura se fundiu dentro da brasileira. A comunidade sumiu dentro da cultura brasileira”. 

Para Nidal, a nova geração nĂŁo estĂĄ se perdendo, apenas nĂŁo estĂĄ atenta Ă s questĂ”es relacionadas Ă  cultura. Ela afirma que sĂŁo pessoas que sĂŁo criadas com costumes 100% brasileiros, e com o passar do tempo, cada vez menos famĂ­lias vĂŁo estimular os filhos dentro da cultura. “EntĂŁo nĂŁo Ă© que nĂŁo haja uma preservação, mas ela diminuiu muito”.

 

Herança indígena

Essa questĂŁo geracional Ă© notada pelo estudante do curso de FarmĂĄcia na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Jerri Candido Pereira, natural de Aquidauana da Taunay Ipegui (TI) Aldeia Água Branca. Para ele, a influĂȘncia das redes sociais tem sido uns dos principais fatores.

“Na minha aldeia estão trazendo muito o funk, o modo de se vestir e o modo de se falar. Eu não tenho nada contra. Mas isso, para mim, está deixando a nossa cultura para trás. Nem a nossa própria língua eles não estão falando, estão falando mais gírias”.  

Para Jerri, muitas vezes em razĂŁo da influĂȘncia, alguns indĂ­genas nĂŁo sĂŁo reconhecidos pelas suas caracterĂ­sticas originĂĄrias. Foto: Juliene Melo


A historiadora Lenita Calado comenta que “desde que o Brasil foi invadido pelos portugueses existiam muitos indĂ­genas na regiĂŁo. NĂłs desde sempre somos formados por pessoas que chegaram aqui”. Segundo dados divulgados pela Secretaria Especial de SaĂșde IndĂ­gena (SESAI/MS), a população indĂ­gena no MS Ă© composta por oito etnias: Guarani, KaiowĂĄ, Terena, KadwĂ©u, Kinikinaw, Atikun, OfaiĂ© e GuatĂł.

Os indígenas estão presentes na formação da cultura sul-mato-grossense, por conta disso, o estado tem uma grande produção de artesanato. Por exemplo, a cerùmica Terena, que foi tombada como patrimÎnio imaterial do estado, o artesanato Kadiwéu e os Bugres de Conceição.

Calado afirma que Campo Grande recebeu imigração, e isso Ă© um fato que faz parte da construção da cidade, porĂ©m tambĂ©m houve impactos negativos. “AlĂ©m dos povos indĂ­genas que aqui jĂĄ estavam, eles foram afetados por essa imigração, acarretando a diminuição, e o afastamento”.

A Casa do Artesão de Campo Grande, além do Memorial Indígena na Aldeia Urbana Marçal de Souza, bairro Tiradentes, são espaços de visitação na capital. Porém, em meio à necessidade de reconhecimento enquanto sujeitos essenciais da formação da cidade, muitos se veem deslocados dos espaços que pertencem a eles.

“A gente deixa nossas casas, as nossas famĂ­lias, a gente vĂȘ como tudo Ă© novo para nĂłs. Ficamos perdidos, sĂł que no meu caso eu nunca vou deixar aquilo que aprendi na aldeia, eu sempre vou levar comigo as minhas caracterĂ­sticas, principalmente a lĂ­ngua materna. E a minha identidade e eu vou levar para sempre”, reafirma Jerri.


Hermanos vizinhos


Estado fronteiriço, o Paraguai faz divisa com os municĂ­pios de Bela Vista, Coronel Sapucaia, Mundo Novo, Porto Murtinho, e Ponta PorĂŁ. O Mato Grosso do Sul possui influĂȘncias culturais como a chipa, sopa paraguaia, e atĂ© mesmo o chamamĂ© que tem origem no gĂȘnero musical guarani. Apesar disso, a diluição tambĂ©m ocorre com a cultura paraguaia e muitas vezes, os imigrantes enfrentam situaçÔes adversas.

A coordenadora da Colînia Paraguaia, Valeria Rojas, lamenta os desafios enfrentados pelos imigrantes. “Às vezes, por vergonha ou medo de julgamentos, eles escondem que são paraguaios”. Com dados divulgados pela Polícia Federal, os residentes no estado oriundos do país vizinho chegaram à marca de 9.789. A coordenadora ainda complementa, que espaços de valorização como a Colînia são essenciais para manter essa cultura viva e promover essa integração cultural com a cidade.

 

Valeria Rojas afirma sentir orgulho de sua origem paraguaia. Foto: Giovanna Montoso


A mĂșsica cantada por Almir Sater, cantor campo-grandense de origem ĂĄrabe, chamada “Sonhos Guaranis”, com caracterĂ­sticas pantaneiras, relata essa influĂȘncia nas produçÔes.

“E às vezes me deixa assim; Ao revelar que eu vim; Da fronteira onde o Brasil foi Paraguai.”

Símbolos paraguaios, a harpa, o violão e a cuia de tereré marcam a entrada no påtio da Associação Paraguaia. Foto: Giovanna Montoso


O consumo da erva-mate no estado é um costume estabelecido pelos indígenas paraguaios. Atualmente, um dos principais consumos dos sul-mato-grossenses é uma herança que começou nas classes baixas, mas muitos esquecem as raízes que deram origem a essa tradição. Ao longo de toda cidade, seja em bairros mais periféricos ou no centro, pontos de comércio da iguaria são encontrados.

O chamamĂ© estĂĄ inserido na cultura sul-mato-grossense. A cidade morena foi instituĂ­da, em 2022, como capital nacional do gĂȘnero, alĂ©m de ter sido estabelecida como patrimĂŽnio imaterial do MS. DĂ©lio e Delinha, ZĂ© CorrĂȘa e Dino Rocha sĂŁo nomes reconhecidos.


ArigatĂŽ aos que aqui chegaram

 

O estado possui aproximadamente 30 mil descendentes de japoneses, sendo a terceira maior colÎnia do Brasil. A Feira Central é um retrato dessa história de imigração japonesa na capital. A maioria oriunda da ilha de Okinawa, tem o sobå como o legado mais forte.

A Feira Central estĂĄ localizada na Esplanada FerroviĂĄria em Campo Grande desde 2004. Foto: Giovanna Montoso


Para Eduardo Kanashiro, presidente da Associação Okinawa na capital, os primeiros imigrantes que chegaram, segundo os assentamentos histĂłricos, sĂŁo de 1914, com o tĂ©rmino da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. “A Cultura Okinawana Ă© respeitada e tem seu espaço, pois nĂŁo Ă© uma cultura recente em nossa cidade”.

Os principais desafios apontados sĂŁo a conscientização e a valorização entre os prĂłprios descendentes de que Ă© um costume dos antepassados e que sĂŁo transmitidos de geração em geração. “Temos o dever de preservar e divulgar para nĂŁo apagar a histĂłria.

O sobĂĄ tornou-se patrimĂŽnio cultural imaterial de Campo Grande, em 2006, tombado pelo Instituto do PatrimĂŽnio HistĂłrico e ArtĂ­stico Nacional (Iphan). Foto: Giovanna Montoso


O calendĂĄrio de açÔes da Associação começa com a Festa do Ano Novo em janeiro; o dia do Sanshin em março; o dia das mĂŁes em maio; a tradicional festa junina em junho; o aniversĂĄrio de fundação da associação em setembro. Nesses eventos ocorrem apresentaçÔes artĂ­sticas com danças, sanshin, taikĂŽ, karatĂȘ e karaokĂȘ.

Para ele  “quem Ă© visto, Ă© lembrado”. EntĂŁo, com frequĂȘncia, a Associação aceita convites para apresentar a cultura, para eles Ă© uma missĂŁo de nĂŁo a deixar morrer. “Temos o nosso espaço e reconhecimento, e temos que manter esse propĂłsito”. Hoje, a Associação Okinawa,  conta com 498 famĂ­lias associadas, dos quais cerca de 20% de outras origens e etnias, envolvendo mais de duas mil pessoas, entre avĂłs, filhos, netos, bisnetos.

Pedro Ortale ressalta que o papel das polĂ­ticas na promoção e preservação das diversas culturas na capital do estado Ă© fundamental pois realiza uma oposição ao processo homogeneizante da indĂșstria cultural. O que garante o acesso Ă  diversidade da produção artĂ­stica e valorização dos bens materiais e imateriais.

“Olha a CalĂłgeras, com todos aqueles prĂ©dios caindo. Aquilo ali Ă© patrimĂŽnio cultural. Veja a FerroviĂĄria, quando tiraram os trilhos de Campo Grande com uma consulta absolutamente tendenciosa, estavam destruindo parte da memĂłria coletiva e nĂŁo se fez absolutamente nada, apesar desses bens estarem tombados”.

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