Talvez a arte possa brotar em árvores
- lauras05
- 19 de nov. de 2024
- 4 min de leitura
Diagnosticado com altas habilidades na infância, Alan Vilar revela uma trajetória repleta de superações no mundo da arte sul-mato-grossense
Evelyn Fernandes e Hyan Martins
Em um sítio, na capital do Mato Grosso do Sul, Alan Vilar passou a vida admirando a natureza, contemplando a arte silenciosa do nascer, crescer e produzir das árvores ao seu redor. Observou durante todas as estações a evolução natural das folhas, na primavera as via florescer e no outono, as via cair.
Desse modo, cresceu vendo como arte tudo aquilo que o cercava .
Foi criado por sua avó, que logo cedo recebeu a notícia de seu diagnóstico: altas habilidades. Mas, como poderia ter altas habilidades uma criança que ia para a escola apenas para pintar e desenhar? Quando reprovou no primeiro ano do Fundamental, Alan se deu conta: para continuar sua aspiração a artista, deveria ir bem em matérias como Matemática e Geografia, não valia de nada ser bom apenas em Artes. E é daí que surgiu o aluno bolsista de Engenharia que, em casa, pintava e bordava, mas para o mundo cursava Cálculo e Física.
Quando se usa uma máscara, não importa por quanto tempo, sua essência passa entre os dedos e desaparece aos poucos. Não foi do dia para a noite, e, nem de uma hora para outra, mas Alan Vilar foi cansando de se esconder atrás dos preconceitos pelos quais foi guiado:
- Não tem como sobreviver de arte no Mato Grosso do Sul, não tem artista que viva bem aqui além dos sertanejos, só se faz arte quando se nasce com dinheiro no bolso - era o que diziam sobre seu desejo.

Bordado em folhas: técnicas diferenciadas dão destaque à obra do artista. Foto: Hyan Martins
No último semestre de Engenharia, na Universidade Católica Dom Bosco, Alan decidiu trocar o cálculo pelo desenho. Trocar uma visão pré-concebida por um caminho que poderia ser escrito por ele mesmo. Prestou novamente o vestibular e passou em Design, na mesma faculdade e com a mesma bolsa de estudos.
Mas, um sonho sempre tem seus desafios e em 2020, a pandemia da COVID-19 assolava o país. No Brasil, todas as faculdades tiveram que implantar o ensino remoto para que seus alunos e professores respeitassem o distanciamento social. Porém, enquanto estudava de casa, Alan tinha a oportunidade de se conectar com a natureza novamente, recuperando sua essência e vendo oportunidades de transformar sua percepção em arte.
Toda sua trajetória daquele momento em diante foi se construindo a partir de características que apenas uma pessoa que viveu no ambiente rural, cercado por sua família, conseguiria cativar durante a vida. A serenidade, a quietude e a paciência. Essas características foram essenciais para que ele começasse a bordar em folhas.
O bordado em folhas é uma prática artística que envolve a técnica da esqueletização da folha caída, removendo seu tecido interno e deixando apenas a rede de nervuras visíveis. Esta técnica demora cerca de três dias ou mais (dependendo da quantidade de folhas) para ser realizada e quando se termina, vem a parte mais difícil: bordar. A folha esqueletizada fica extremamente frágil, atrasando o processo do bordado, mas deixando um resultado extremamente delicado.
Finalmente, o artista Alan Vilar inicia suas produções. Faz peças por gostar de fazer. Faz peças para inovar e aprender. Faz peças para vender. Começa a publicar em suas redes sociais e vê uma oportunidade de deixar a arte falar por si.
Não é de hoje que o nosso Pantanal vem ardendo em fogo, e em 2020 foi registrada uma das maiores queimadas no Mato Grosso do Sul, onde a imagem de uma onça que aparecia em meio às chamas foi divulgada em rede nacional. Alan decidiu bordar uma onça em uma de suas folhas e quando finalizada, começou a gravar: ateou fogo na folha e na onça, deixando sua arte sumir, desaparecer em meio ao fogo, restando apenas cinzas, assim como os 17 milhões de animais vertebrados que morreram carbonizados neste ano.

Notoriedade nacional: a obra do artista virou destaque na Rede Globo. Foto: reprodução do Instagram
Mesmo sendo um designer formado, a engenharia nunca ficou de lado, e surge quando Alan dá vida a uma estrutura própria para bordar em folhas em colaboração com uma marca de acrílicos. Ela foi desenvolvida porque era muito cansativo e prejudicial para a saúde dos músculos da mão segurar a folha com delicadeza durante horas, ou talvez dias, até a obra estar pronta.
Hoje aos 30 anos, Alan Vilar, natural de Campo Grande é considerado uma das figuras mais importantes da arte têxtil no Mato Grosso Sul, tendo enfrentado muitos estigmas sociais por ser um homem que borda. Atualmente, coleciona experiências e conquista espaços que um dia pareciam distantes. Ele é convidado para oficinas de artesanato no Brasil inteiro, tendo a oportunidade de conhecer lugares que jamais imaginou visitar. No dia 16 de maio deste ano, foi convidado para participar de um dos maiores programas televisivos do país, levando um papagaio bordado em folha para Ana Maria Braga.

Alan é um daqueles artistas que exalam criatividade e que não só vê arte em tudo a sua volta, mas que também respira arte. Sua jornada até aqui foi o início de muitos sonhos que estão próximos de serem concretizados, como quem sabe, poder transformar sua arte de maneira que ela contribua com outras pautas sociais e comunidades. Ele carrega sua essência consigo: sua avó e o sítio em que foi criado.
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