Um segundo lar - só falta o chimarrão
- lauras05
- 19 de nov. de 2024
- 5 min de leitura
O lar de idosos Sirpha é a casa de quem acumula histórias e experiências
Texto e fotos: Juliana Braz

Quem entra é recebido pelo bom humor dos funcionários e um ambiente decorado com as artes dos seus moradores
Na década de 1970, diversas pessoas chegavam aos bairros Nova Lima, Jardim Columbia e Anache, em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. Muitas vezes, elas vinham sozinhas, não tinham família, eram marginalizadas e sofriam diversos preconceitos. Traziam diversas sequelas, algumas eram causadas pelo abandono e segregação, outras pela doença que as marcaram por muito tempo: a hanseníase, que foi conhecida por muito tempo como lepra. Naquele tempo, foi decretado o fim do isolamento de pessoas com a doença, elas saíram dos hospitais - asilos colônias, como eram conhecidos - e foram morar em barracos, ainda em situação de vulnerabilidade.
Nessa mesma época e no mesmo lugar, nascia a casa de, atualmente, 92 pessoas, uma instituição sem fins lucrativos que se originou a partir de grupos de apoio da cidade que tinham como objetivo acolher ex-hansenianos, oferecendo moradia para os que tinham família e abrigo para os que estavam só.
Nos dias de hoje, qualquer um encontra facilmente o lugar. De longe, é possível avistar os muros altos e a cerca elétrica que envolve uma quadra inteira. Apesar de a entrada principal ter os muros brancos, parte da instituição não está pintada, como se as demandas fossem muitas para seus administradores conseguirem vencer. De qualquer lado que se chegue, é possível ver grandes árvores com flores e frutos. Ao se aproximar, a primeira entrada do local fica visível bem na esquina com uma placa sinalizando “Bazar solidário: SIRPHA LAR DO IDOSO”, um indício de uma das formas de arrecadação que sustentam o local.
Além dessa, existem outras três placas com identificação de entrada. Ambulância, mercadoria, visitas, funcionários, todos vão e vêm mas tem um perfil de pessoas que entra e quase nunca sai, seu Aniceto é um deles. Está lá desde o início. Cadeira de rodas, rosto magro e negro, são tantas rugas que seus olhos quase não abrem, seus lábios finos contornam uma boca que já não tem mais dentes mas que abre um sorriso gigante ao ouvir alguém falar do Corinthians. Da sua sobrancelha, restam alguns fios brancos e seus cabelos, da mesma cor, estão sempre cobertos por uma touca ou um boné do clube que ama. Seus olhos são brilhantes, mostrando uma personalidade bacana e uma história admirável, como descrevem seus conhecidos, no entanto, da sua voz quase não saem palavras. Apesar de ter muito para contar com seu visível bom humor, é como se não tivesse força sobrando para isso, seus 113 anos de vida tomaram todo o seu fôlego.

Ex-hanseniano, corintiano e morador da SIRPHA há 50 anos, seu Aniceto ainda transmite bom humor
Na recepção da instituição, um cartaz com o desenho de uma árvore ocupa boa parte de uma parede, com diversos galhos. Em cada ponta está o rosto de um dos quase 100 idosos que atualmente moram por lá. O que inicialmente era um abrigo aos ex-hansenianos, como Aniceto, tornou-se em 2005, uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPL), acolhendo quem foi abandonado e não tem condições de viver sozinho em casa nem dinheiro para contratar alguém que preste assistência. Segundo a funcionária Elaine Roberta, muitos dos idosos foram abandonados em hospitais ou passavam fome sozinhos em casa quando foram encaminhados pela assistência social .
- Muitos deles chegam só com a roupinha do corpo - conta Elaine - Aí eles conseguem tudo aqui.
Além do cartaz, vários enfeites de Natal produzidos pelos idosos sinalizam que o final do ano está chegando. Após a recepção, o espaço se abre em diversos blocos. Um dos principais e favoritos de todos é o refeitório, com janelas por toda a parede, dois blocos de mesas enfileiradas para virar uma só e poltronas nos cantos com o nome dos donos identificado em cima delas. O grande salão é o principal espaço de convivência, o lugar de todas as refeições e o ambiente em que as artes produzidas por eles são expostas em varais. O lugar parece calmo até algum funcionário ou visitante chegar, então começam os convites para conversar, a troca de sorrisos e carinhos, principalmente beijos na mão. Os estilos são variados: roupas coloridas, peças de crochê, toucas sobrepostas, pochetes e cortes de cabelo diferentes. A personalidade também varia, alguns são sociáveis e extrovertidos, outros solidários, ajudam quem não consegue levantar sozinho e buscam copos de água. Há casais que se conheceram ali e também aqueles que não se dão bem.
Outro lugar que todos adoram é o jardim, um espaço verde, repleto de árvores de vários tipos e tamanhos com bebedouros de beija-flor e muitos pássaros. Ele fica no centro dos apartamentos - quartos com banheiro para duas pessoas onde eles dormem - como se fosse um quintal. Com banquinhos para sentar e descansar e o som dos pássaros que ecoa por todo o espaço, tudo fica com cara de casa. Apesar disso, por todo o ambiente fica uma sensação de vazio, nada se compara ao próprio lar, ali tem academia ao ar livre, momentos de artesanato e sessões de cinema três vezes por semana em uma sala feita exclusivamente para eles, com poltronas pretas gigantes, um telão, pipoqueira e suco, eles podem escolher o que assistir - faroeste e shows do Roberto Carlos são os mais populares. Há passeios dentro e fora da cidade, aniversariantes do mês com temas variados e festas nas datas comemorativas, mesmo assim, toda essa liberdade não se compara com o que tinham em casa. Dona Júlia, de 78 anos, diz que nada é igual a poder fazer um chimarrão sempre que quiser.
Com uma pele fina e rosto magro, seus olhos grandes e profundos ficam marcados. Dona Júlia se movimenta com uma cadeira de rodas e tem as mãos retorcidas. Seus cabelos brancos são ondulados e sua personalidade tira uma risada de quem for conversar com ela - piadista, aprendeu a costurar desde cedo.

Na terapia ocupacional, idosos fazem artesanatos trabalhando a criatividade e a coordenação motora
Nos momentos de trabalho mais tranquilos da enfermeira Marta Sales, os pacientes mais ansiosos são promovidos a assistentes e nas pausas, jogos de dominó acalmam os idosos agitados por causa da demência. Dez minutos antes das refeições ou de alguma oficina, uma alexa (equipamento de Inteligência Artificial) emite o aviso para todos se prepararem, assim, a rotina do lugar vai sendo criada, muitos se sentem como família, tanto funcionários quanto moradores criam vínculos
- A gente se apega a cada um - diz Elaine Roberta - com a sua história, suas necessidades, então acaba sendo uma família mesmo e a parte da despedida não é fácil.
Ela explica que muitos idosos podem ter complicações a qualquer momento, apesar de não ser algo frequente. Os funcionários tentam se preparar para os dias em que alguém irá dormir e não acordar. O que os anima é observar o antes e depois de cada um, às vezes chegam magoados, depressivos ou desanimados mas com o tempo, suas feições mudam, fazem amizades e até superam a expectativa dos médicos.
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