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Variação do dólar impacta o mercado agropecuário de Mato Grosso do Sul

  • lauras05
  • 10 de fev.
  • 5 min de leitura

Exportações são beneficiadas, mas instabilidade do dólar preocupa quem importa insumos


Beatriz Cardozo e Glenda Rodrigues Oliveira


Exportação de carne pode ser beneficiada - Foto: Nara Boígues
Exportação de carne pode ser beneficiada - Foto: Nara Boígues

Localizado no Centro-Oeste do Brasil, uma região reconhecida por sua agropecuária, o estado de Mato Grosso do Sul se destaca não apenas pela produção de grãos e carnes, mas também por sua relevância como um dos principais polos de exportação do setor em nível nacional. Com a recente valorização do dólar em 2025, cuja média da taxa de câmbio foi estipulada em R$5,70 na primeira semana do mês de fevereiro, as operações de venda e exportação dessas commodities se tornaram mais vantajosas em comparação com a prática das importações.

 

Mas, como funcionam essas variações?

 

            O dólar é a moeda utilizada para transações globais, que serve como referência para o cálculo e análise de cenários econômicos, influencia e permite avaliar condições mais favoráveis ou desfavoráveis no contexto do sistema monetário internacional. Para indicar se o dólar foi valorizado ou desvalorizado, a taxa de câmbio é a relação considerada para comparar o seu valor entre as moedas de diferentes países e, do mesmo modo, ao real brasileiro. Essa taxa é sinônimo do preço do dólar em reais. Assim, mudanças nos preços das moedas, que podem resultar em valorização ou desvalorização, geram variações cambiais. No Brasil, o regime adotado é o flutuante, permitindo que a taxa de câmbio varie livremente, de acordo com a oferta e a demanda internacional.

A alta na taxa de câmbio pode estimular o mercado de exportações, uma vez que aumenta a rentabilidade e competitividade do mercado externo, relacionada à comparação entre o preço de produtos estrangeiros e os produtos nacionais. Quando a taxa de câmbio real está elevada, os produtos de consumo nacionais estão relativamente mais caros do que os importados, o que proporciona mais lucros. Todavia, com a alta americana, despesas que têm seus preços baseados em dólar também aumentam, como tarifas, seguro internacional, fretes e taxas.

O Real é a moeda utilizada para estabelecer o poder de compra interno, sendo que o valor dos produtos e serviços é influenciado pela cotação do dólar devido aos principais destinos de recepção e compra dos produtos importados serem a China e os Estados Unidos, que utilizam o dólar como moeda de troca.

Com o Real desvalorizado, a receita dos exportadores é maior, que passam a receber mais em Reais, ao mesmo tempo que os importadores lidam com o encarecimento de suas compras para manter sua atividade e sobrevivência no mercado produtivo.

“O câmbio quando ele se desvaloriza, a exemplo de quando estamos presenciando um dólar para quase seis reais em uma desvalorização do Real, é bom para o exportador porque ele vai embolsar mais unidades de reais. Mas para o importador é péssimo, porque para executar as suas ações, terá que desembolsar mais unidades de reais. Então essa situação se torna muito difícil para o importador brasileiro trazer algum produto porque ele terá que subir os preços para manter a mesma margem de lucro, como exemplo no mercado de Mato Grosso do Sul”, explica o economista Renato Gomes.

 

Nossas exportações

 

            Em 2025, a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) divulgou dados das exportações do estado, no qual grãos e carnes somaram parte da resultados do setor de indústria de transformação, que passou de US$ 4,74 bilhões, para US$ 5,93 bilhões de janeiro a novembro de 2024. Enquanto, de acordo com dados publicados no site da Famasul, o total das exportações do agronegócio sul-mato-grossense apresentou crescimento de 77,3% na receita, US$2,6 bilhões.

Ainda segundo a instituição, no segmento de grãos, a soja foi a líder de ganho com o montante de US$2,8 bilhão. Conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a receita de exportação de carne bovina de Mato Grosso do Sul teve um aumento de 33,73% em 2024 em relação ao ano anterior, com faturamento de US$1,278 bilhão.

O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo

O mais recente levantamento realizado pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), publicado em agosto de 2024, mostra que o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo. O estudo apontou que o país tem uma criação prevista para 2025 de 47,8 milhões de bezerros, um aumento de 1% em relação ao rebanho registrado em 2024, que foi de 47,5 milhões. As exportações de gado vivo em 2025 devem chegar à marca de 515.000 cabeças, menos do que as 525.000 ocorridas em 2024. A queda é reflexo da retenção de gado decorrente de política externa, como a decisão da Turquia de impor uma cota de importação de gado de engorda. A previsão para este ano é de que a exportação de carne bovina brasileira bata recorde, em razão da forte demanda externa, da desvalorização do real e dos desafios enfrentados pelos países concorrentes.

O estudo também aponta que Mato Grosso do Sul é um dos principais estados do país para a prática de confinamento, totalizando 811.265 cabeças de gado. Além da carne bovina, a soja, a celulose e as carnes suína e de frango compõem os produtos de destaque da economia agropecuária local. A carne suína também é um dos expoentes sul-mato-grossenses. O relatório do departamento estadunidense aponta para um aumento de 1% da produção dessa commodity em relação à safra suína brasileira de 2024, devido aos menores custos de produção, melhor consumo externo e demanda externa positiva. A expectativa é de que 4,65 milhões de toneladas sejam produzidas. 

José Pádua, gerente técnico da Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul - FAMASUL, faz um diagnóstico de como a variação do dólar impacta a exportação desses produtos. “O mercado internacional, tanto de importação quanto de exportação, é pautado em dólar. Então boa parte das commodities têm seu valor em dólar. Quando há uma desvalorização do real, ou seja, o dólar fica mais caro em real, isso, em tese, favorece as exportações. É como se eu tivesse vendendo o mesmo produto e o valor que ele tem em dólar acaba sendo maior, porque o valor em dólar não mudou, e o valor em real acaba sendo maior, porque o dólar está valendo mais do que antes”. 

O gerente técnico da Famasul afirma que a exportação agropecuária é pautada pela oferta e demanda, ou seja, vende-se mais se houver maior demanda internacional, ao passo que a importação é referenciada pelo valor do dólar americano, cujo aumento é sentido pelo mercado interno. Pádua esclarece que o impacto do dólar na economia interna é refletido nos custos de produção, como maquinário, combustíveis, nas commodities que são importadas, ou seja, nas importações de um modo geral. “Se a gente for olhar na nossa vida doméstica no Brasil, vários produtos sofrem a influência do dólar, por exemplo, a gasolina, o etanol, porque o mercado do petróleo é dolarizado”.

Para os importadores, o cenário nacional previsto é de queda para a receita em 2025 em comparação a 2024 de acordo com o levantamento realizado pela USDA. Com previsão de aumento de 1% no consumo interno de carne (3% a menos do que o conquistado em 2024). No estado, o balanço final de 2024 divulgado pela Famasul, o Valor Bruto da Produção (VBP) ficou estimado em R$69,32 bilhões, com destaque para a agricultura (R$45,86 bilhões), representando uma queda de 23,2% em relação a 2023, quando foram registrados R$59,73 bilhões.


José Pádua - "O mercado internacional, tanto de importação quanto de exportação, é pautado em dólar"


Pedro Belo, comprador de gado gordo no estado, explica que a alta do dólar ajuda a indústria exportadora com o dólar valorizado, dando vazão aos produtos para o mercado lá fora. Aumento que é refletido ao produtor firmar bons preços no mercado, mas em contrapartida, esse mesmo produtor pode sentir o impacto no custo de produção, devido aos insumos agrícolas serem dolarizados. “O que pode assustar e afetar negativamente ou positivamente o produtor, é o momento de mercado que ele está. Visto sempre como algo particular de cada um. Se ele estiver em um momento de venda da carne pode ajudar, mas se estiver no momento de compra de insumos pode atrapalhar”.

 

 

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